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Sobre razão e emoção

Sobre razão e emoção
Mel me ensinou a ter paciência com o destrutivo vigor da juventude e respeito pela quietude da velhice

CASAMENTO É mesmo algo transformador. Transforma a vida da gente quando começa. Transforma a vida da gente quando termina.
Foi quando meus pais se separaram que vi Gaúcho pela última vez. Eu tinha seis anos. Ele, uns três. Havíamos passado juntos a metade da minha vida, correndo pelas ruas da Tristeza, bairro de nome sugestivo na periferia da gelada Porto Alegre.
Lá se vão mais de 30 anos, mas me lembro com clareza de quando ele apareceu.
Era sábado de verão -dia de churrasco em muitas casas do Sul. Meu avô voltava do açougue com a carne dentro de uma espécie de gaiola, comum em uma época em que os embrulhos eram de papel e se desfaziam com o suco da carne. Os pingos caíam no chão, e o rastro atraiu o pequeno vira-lata.
Daquele dia em diante, formamos uma dupla: Gau Mãe e Gau Filho, como costumava gritar antes de iniciarmos uma corrida, com um trapo qualquer amarrado ao pescoço, em forma de capa de super-herói.
Para mim, Gaúcho era da família. E eu tinha dificuldade de entender porque ele deveria dormir lá fora ou tomar banho de mangueira (em uma casa com tantos chuveiros).
Mas, quando meu pais se separaram e venderam a casa grande, Gaúcho foi adotado pela vizinha sob a promessa de que eu sempre poderia visitá-lo. Nunca mais nos vimos.
Vinte anos depois, fui eu que me separei. E resolvi que, agora, em vez de enterrar, era hora de reativar alguns dos meus sonhos.
As caixas ainda estavam no meio da sala quando fui ao Centro de Controle de Zoonoses. Na fila, como quase todo mundo, eu estava decididíssima: sairia de lá com um filhote de pequeno porte e, claro, de raça.
Nas gaiolas havia uma centena de cães e gatos. Seria a última chance para a maioria deles, porque naquela época era permitido o sacrifício de animais saudáveis em São Paulo, o que só foi proibido em 2008. Ter noção disso tornava minha decisão ainda mais difícil.
Queria todos, mas acabei fisgada por uma patinha que se esticou por entre as grades. Ela era tudo o que eu não imaginava levar para casa: crescida, de porte médio, sem raça e com o pelo daquele típico amarelo vira-lata. A cor rendeu-lhe o nome: Mel. E eu mudei minha vida.
Nos últimos 11 anos, Mel me ensinou a amar incondicionalmente -a frase combina mais com um para-choque de caminhão, mas é uma lição e tanto para alguém que não tem filhos. Ensinou-me a cuidar, a reconhecer e impor limites, a ter paciência com o destrutivo vigor da juventude e respeito pela quietude da velhice.
Mel, claro, ganhou alguns irmãos nessa nossa jornada. E, juntos, eles operaram uma revolução: me empurraram ao curso de medicina veterinária, quinze anos depois de respirar jornalismo nas maiores redações do país.
Queria ajudar, curar e, quem sabe, entender os cães. Mas, na faculdade, descobri o charme dos gatos, a sensibilidade das aves, o equilíbrio dos cavalos.
Descobri o fascínio e a fragilidade da vida sob tantas formas. E descobri, sobretudo, que, nos consultórios como na vida, razão e emoção devem andar juntas. Porque a boa ciência se faz à luz do coração.
É..., casamentos são mesmo transformadores.

São Paulo, segunda-feira, 18 de julho de 2011
 
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SÍLVIA CORRÊA correa-silvia@uol.com.br

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